começava mais uma chuva enquanto outra música chegava ao fim no cd player. no fim do dia era novamente como se tudo fosse desabar. passei para a terceira marcha e olhei para o lado. ela procurava entre meus cds alguma coisa que pudesse agradar. segui por mais alguns metros antes de avistar o farol, vermelho.
"mais uma vez, fechado pra mim".
"para de drama. para de morrer por qualquer coisa".
desviei o olhar. eu sabia mas não queria saber. eu sentia, mas não queria aquele peso, não queria aquela pedrada. acabei olhando, claro, de solsaio, disfarçado, usando um tanto o retrovisor. aqueles olhos tão, tão, sei lá, aqueles olhos dela não tinham nem se desviado do estojo onde procuravam por alguma boa música, os dedos passando os discos um por um. sem levantar a vista. engatei a primeira marcha e voltei a atenção novamente para a rua. o farol ainda vermelho - e parecia de repente o mais longo e mais intenso dos vermelhos do mundo.
"você já se sentiu como se te tirassem o horizonte?"
"ah, sim. mas não sabia que algum dia você tinha traçado qualquer caminho certo".
"é. não. você tá certa. acho que quis tanto seguir os horizontes perdidos que me perdi de mim mesmo".
o semáforo abriu. saí lentamente. uma quadra, duas, três. segunda, terceira marcha.
"você tá vendo aquela placa?"
"sim", respondi. o texto branco no fundo verde apontava a última saída para a avenida principal da cidade. acabávamos de passar por ela, devagar.
"então. passamos. um pouco. talvez uns cem metros. mas passamos. e você não pode dar ré aqui na avenida".
"nunca tinha pensado nas coisas assim. é tudo tão simples, né?"
ela não respondeu. fiquei em silêncio, também. não tinha realmente pensado em nada. andava recusando os próprios neurônios, mergulhado em minhas músicas, nos documentos do trabalho, compromissos pré-fixados, cervejas na promoção, calçadas lotadas, metrôs infernais, bons livros e filmes.
os amigos passavam e cumprimentavam, estendiam a mão e perguntavam amistosos "tudo bem?" e eu respondia que sim, que tudo bem, tudo bem, tudo ótimo, e as coisas iam adiante, tudo bem, por que não estaria, só por que ela não levantou os olhos de uma caixa de cds de qualidade duvidosa, só porque havia acabado de me dar um tiro e mais um, sem ao menos engatilhar uma arma? já houve quem sobreviveu a vinte, trinta disparos e depois pôde dizer que tudo bem, tudo bem, por que eu não poderia, pensei, enquanto armava um sorriso amarelo.
quarta marcha, mas sem correr. passamos por uma placa de retorno. o silêncio do rádio sem música dominava tudo. dei seta. o barulho do dispositivo enchia o carro. a luz piscava. à direita.
"merda. você não entende".
"o quê?", perguntei. não quis dizer que, na verdade, eu talvez entendesse ou nunca tivesse entendido. mas de qualquer forma minha única certeza é que não havia jamais existido um meio termo. eu, o cara das evasivas, o maior mestre do "sei lá" e da dispersão, sabia que na vida existia um sim e um não. apenas.
"acho que não entendi, mesmo".
"a vida não é uma estrada. desculpa. não tem retorno".
desliguei a seta e pisei no acelerador.
"talvez seja. acho que só preciso encontrar o caminho de volta pra casa, sem mapas, sem atalhos".
engatei a quinta marcha com a certeza de que entrava, definitivamente, no ponto morto.