Friday, December 04, 2009

do dia em que fui atropelado por um bonde

olá, meu nome é henrique e tenho um grande talento em decepcionar pessoas. exercitei desde sempre, do colégio às ruas da cidade. de tanto quebrar as expectativas dos outros, aprendi a não criá-las para mim mesmo. pelo menos eu achava.então aconteceu que por tantos anos eu me sentia forte, imune, pairando acima das ameaças infantis que a vida apronta pra gente. acontece que criei barreiras. de que outro modo eu poderia me proteger? eu pensava que estava seguindo em frente sem obstáculos mas não percebia que tudo era tão fácil porque era rota de fuga, caminho livre. o problema é que fui atropelado. quando você corre na contramão, o perigo é maior, é como andar de bicicleta. a verdade é que assim também é mais fácil ver o que está vindo ao seu encontro, mas você já reparou que os carros sempre parecem um pouco mais distantes do que realmente estão? então parecia distante, parecia seguro e de repente, o impacto, atropelado, caído no chão. ninguém parou pra prestar socorro. fiquei ali, estatelado. dói. não sei se já aconteceu com você. sangra. então é isso. subitamente eu percebia que minhas barreiras e a força que eu achava que tinha não impediam que eu fosse uma vítima frágil para qualquer acidente desses. eu, que tanto tinha aprendido a não criar expectativas, agora via que as próprias expectativas deviam ter se cansado de mim. eu, que tinha decepcionado tantas pessoas, agora decepcionada também a mim mesmo. caído na sarjeta.

é. eu não sou mais o mesmo. mas, depois de tudo, como poderia ser?

Sunday, November 29, 2009

filosofias baratas e música brega

a carla falava com a sabedoria de um grande mestre, com calma e fluência, cada palavra fazendo sentido. carla, que tinha estudado até a quinta série e há cinco anos ganhava a vida dançando num poste e trepando em troca de vinte reais por gozada.

"trepar é a melhor e a pior coisa do mundo".

estava invariavelmente com um cigarro em uma mão e uma cerveja na outra, o rosto já não muito bonito abatido pelo cansaço. não era a imagem que eu fazia de uma grande filósofa, mas eu parava pra escutar suas palavras em meio ao som de conversas paralelas e uma música brega em alto volume.

"tudo que todo mundo faz o tempo todo é só pensando nisso e é por isso que ninguém vale nada. as pessoas acham que eu sou um lixo porque dou pra qualquer um em troca de grana. aí uma mulher, pra dar pra um cara que ela quer, faz mil filha da putices, magoa outras duzentas pessoas e no fim fode também o cara que comeu ela. que sai de lá e faz mais um monte de merda pra trepar com outra mulher e esquecer disso".

dei risada ao mesmo tempo em que sentia o quanto havia de verdade ali e em quanto isso era triste.

"tudo se resume a isso. sexo e dinheiro. aí pra desbaratinar você também toma uns tragos, fuma um cigarro. agora pensa que isso é minha vida. ganhar dinheiro, foder, beber e fumar. e é uma merda".

"imagino que seja. a minha tem sido também".

"não acho. você tem emprego, não ganha tão mal, tá bem aí, sempre saindo, festas, amigos e tal. sempre tem alguma coisa pra fazer, sempre fazendo coisas legais. não é das piores existências, meu amigo".

pensei naquilo. o foda é que era verdade, mas não fazia sentido.

"não vamos cair no clichê do 'olha como podia ser pior'. a questão é que tudo isso já me importou muito. agora é tudo tão secundário, sabe?"

"disso eu acho que entendo. porque, olha pra mim. meus dias são isso e isso e isso. quando acaba, já não tem nada. não sei mais dizer nem quem eu sou, acho".

meneei a cabeça, concordando.

"é. era tudo tão tranquilo. bom. aí de repente é tudo melhor. tudo. mas ao mesmo tempo, as coisas vão se concentrando em uma só. e aí acaba que um dia você está sem centro de novo. e as coisas continuam acontecendo. mas parecem sem gosto".

"é, resumiu meus dias".

"vida em ritmo de cerveja quente".

"ou de ressaca".


Tuesday, November 24, 2009

numa viagem sem mapas

o carro adentrava a marginal e éramos recepcionados em são paulo por uma chuva característica e um princípio de trânsito lento. a noite, ao menos, era bonita, estrelada. dei pra reparar nisso, atualmente, você viu? numa daquelas fases de perceber acordes novos em velhas canções. a luz dos carros, aquela luz vermelha das lanternas traseiras, preenchia toda a avenida. achei bonito. o marcos trocou de rádio e suspirou.

"é, estamos aqui. sempre voltando".
"é. essa sensação de voltar pra casa. sempre".
"ah, eu odeio. o pior de qualquer viagem é a volta pra casa".
"depende do que te espera por lá, não é?"

sem resposta, voltei a atenção pra pista. não podia esperar muito mais. eu mesmo não entendia o sentido daquilo. afinal, o que me esperava? estávamos ali, na pista, onde as placas indicavam todos os caminhos, mas eu não conseguiria dizer qual era a minha verdadeira rota dali pra frente. acho que era isso, como estar em uma viagem sem mapa, sem sinais.

"jornadas como essas são as que rendem melhor, sabe, te levam a caminhos novos e surpresas", você diria, daquele seu jeito que está sempre certo. o meu problema é que eu só queria voltar pela mesma trilha e era incapaz de encontrar a entrada. afinal, o caminho não é reto. e eu sempre, sempre me perdia nas curvas.

"trabalha amanhã?", o marcos perguntou, aproveitando um silêncio de fim de música.
"sim, estamos aí de volta à labuta".
"é isso aí. o que mais você queria? é isso o que tá aí esperando pela gente".
"você tem vontade de às vezes só fugir né? férias do mundo aqui?"
"isso".

concordei com a cabeça em um gesto lento. peguei uma das saídas laterais e estávamos fora da marginal, rumo ao lar doce lar. agora sem trânsito. pensei na ideia do marcos. férias de tudo, não? sem destino, como um navio largado no mar, sendo levado, podendo chegar ou não a algum lugar. mas lembrei que ainda havia âncoras. sim, eu ainda queria voltar. mas, de alguma forma, estava cada vez mais longe da estrada certa. e às vezes pensava mesmo que nunca tinha a encontrado.

"ei, presta atenção. acho que você errou a saída, pô".
"é. acho que sim".


Sunday, November 15, 2009

sem direção

começava mais uma chuva enquanto outra música chegava ao fim no cd player. no fim do dia era novamente como se tudo fosse desabar. passei para a terceira marcha e olhei para o lado. ela procurava entre meus cds alguma coisa que pudesse agradar. segui por mais alguns metros antes de avistar o farol, vermelho.

"mais uma vez, fechado pra mim".

"para de drama. para de morrer por qualquer coisa".

desviei o olhar. eu sabia mas não queria saber. eu sentia, mas não queria aquele peso, não queria aquela pedrada. acabei olhando, claro, de solsaio, disfarçado, usando um tanto o retrovisor. aqueles olhos tão, tão, sei lá, aqueles olhos dela não tinham nem se desviado do estojo onde procuravam por alguma boa música, os dedos passando os discos um por um. sem levantar a vista. engatei a primeira marcha e voltei a atenção novamente para a rua. o farol ainda vermelho - e parecia de repente o mais longo e mais intenso dos vermelhos do mundo.

"você já se sentiu como se te tirassem o horizonte?"

"ah, sim. mas não sabia que algum dia você tinha traçado qualquer caminho certo".

"é. não. você tá certa. acho que quis tanto seguir os horizontes perdidos que me perdi de mim mesmo".

o semáforo abriu. saí lentamente. uma quadra, duas, três. segunda, terceira marcha.

"você tá vendo aquela placa?"

"sim", respondi. o texto branco no fundo verde apontava a última saída para a avenida principal da cidade. acabávamos de passar por ela, devagar.

"então. passamos. um pouco. talvez uns cem metros. mas passamos. e você não pode dar ré aqui na avenida".

"nunca tinha pensado nas coisas assim. é tudo tão simples, né?"

ela não respondeu. fiquei em silêncio, também. não tinha realmente pensado em nada. andava recusando os próprios neurônios, mergulhado em minhas músicas, nos documentos do trabalho, compromissos pré-fixados, cervejas na promoção, calçadas lotadas, metrôs infernais, bons livros e filmes.

os amigos passavam e cumprimentavam, estendiam a mão e perguntavam amistosos "tudo bem?" e eu respondia que sim, que tudo bem, tudo bem, tudo ótimo, e as coisas iam adiante, tudo bem, por que não estaria, só por que ela não levantou os olhos de uma caixa de cds de qualidade duvidosa, só porque havia acabado de me dar um tiro e mais um, sem ao menos engatilhar uma arma? já houve quem sobreviveu a vinte, trinta disparos e depois pôde dizer que tudo bem, tudo bem, por que eu não poderia, pensei, enquanto armava um sorriso amarelo.

quarta marcha, mas sem correr. passamos por uma placa de retorno. o silêncio do rádio sem música dominava tudo. dei seta. o barulho do dispositivo enchia o carro. a luz piscava. à direita.

"merda. você não entende".

"o quê?", perguntei. não quis dizer que, na verdade, eu talvez entendesse ou nunca tivesse entendido. mas de qualquer forma minha única certeza é que não havia jamais existido um meio termo. eu, o cara das evasivas, o maior mestre do "sei lá" e da dispersão, sabia que na vida existia um sim e um não. apenas.

"acho que não entendi, mesmo".

"a vida não é uma estrada. desculpa. não tem retorno".

desliguei a seta e pisei no acelerador.

"talvez seja. acho que só preciso encontrar o caminho de volta pra casa, sem mapas, sem atalhos".

engatei a quinta marcha com a certeza de que entrava, definitivamente, no ponto morto.


Sunday, November 08, 2009

você não aprendeu ainda?

a primeira vez em que me mataram foi um pouco estranha. o pior é que lembro de cada detalhe. cada palavra. cada momento em que a dor surgia, cada punhalada no coração. na segunda não foi muito diferente. houve, aí, alguma euforia perdida na noite, alguma enganação própria. claro. eu não queria assumir e não diria nunca para mim mesmo que era a segunda vez em que deixava que a morte tomasse minha alma assim, de assombro, chegando sem convite. não, nem isso, chegando disfarçada de bons agouros.

é estranho morrer. dói bastante na hora- diria que é algo como ser atropelado por um bonde, se eu pudesse comparar. mas o pior talvez seja mesmo depois. você se sente vazio. é como se você tivesse...morrido. não é, afinal? eu ia até falar que é como fazer uma longa viagem, pegar uma estrada e de repente se perder no meio do caminho, sem ter chegado ao destino, sem poder voltar pra casa, sem nada, acabou, sabe?

não lembro direito como foi minha primeira morte. tá, mentira, lembro de cada palavra, e já disse isso. mas acho que daquela vez foi pior a dor na hora, mesmo, a porrada. murro no nariz, acho. sangra, dói. é isso ou algo semelhante.

doeu, mas depois acho que não foi tão vazio. acho. agora a morte foi previsível - se eu tivesse algum pingo de consciência poderia ter até evitado, mas a vida é sempre assim, não é? uma corrida atrás da morte? então fui me deixando levar rumo ao desfiladeiro, os passos contados. embora eu sempre achasse que poderia parar ou mesmo acreditando sem motivos que alguma mão se estenderia.

aí o que acontece? a gente cai. a vida tem dessas coisas, afinal. a vida tem muitas mortes.

Monday, November 02, 2009

sem ponto final.

"eu sempre tive mil problemas e um deles era mesmo com o término, era do tipo de cara que chega mesmo a pular os epílogos dos livros e do que, quando escreve, evita o ponto final, pode-se perceber, tenho ódio eterno pelos pontos porque eles são como um tiro e matam, acabam com a vida e pode ser de qualquer jeito, pode ser de repente e esses são os piores tipos, daqu.

eles que nem esperam terminar uma frase, uma palavra, nada, chegam com violência bruta, pronto, acabou, não chora, olha pra frente, enxuga as lágrimas que começam a nascer nos olhos, no meio da rua, noite de quinta, vento frio soprando e você vai chorar, não, não faça isso, ainda há tanto pela frente e nem havia nada ali atrás, você não percebeu, todos sabiam, mas você não, acreditava estar no caminho certo enquanto só ia de encontro a uma colisão, como andar pela linha do trem, uma hora ele vem e te arrebenta, mas você não pode dizer que não sabia o que ia acontecer, todos sempre sabemos, acho, sempre podemos saber, mas é bom ser cego, é bom ser burro, qualquer ignorância é bem vinda nessas horas, qualquer mentira ou engano, porque tudo o que queremos é seguir adiante com a farsa, estamos sempre numa ilusão, você não acha?"

Saturday, October 24, 2009

auto-nostalgia

o fábio não fumava, então, quando vi que ele estava ali, sentado do lado de fora do bar, na calçada, cigarro entre os dedos - e, merda, ele nem sabia mesmo segurar aquela porra ou até tragar - e tossindo levemente com a fumaça, não consegui deixar de ficar um pouco triste por pensar que era uma das cenas mais patéticas da minha vida. o pior é que eu até entendia o que estava acontecendo - de alguma forma eu conseguia entender um pouco as coisas de outras pessoas, embora não deixasse transparecer e elas mesmas achassem que eu estava sempre errado, de forma que eu falava um 'deixa pra lá' e deixava que pensassem o que quisessem. eu entendia e era exatamente isso que me deixava um pouco melancólico e parecia decretar o fim prematuro daquela noite de sábado.

uns três anos antes talvez fosse eu ali e alguma vez devo mesmo ter protagonizado cenas iguais. e isso me lembra como estou sempre em busca de algo e tudo é desculpa. o emprego, a correria, o erro, o perdão, o fora, o acidente, o atraso, a chance, a garota, tudo é só desculpa, porque a grande busca é - e sempre foi - a busca por mim mesmo. eu não sentia saudades e tinha mesmo vergonha de lembrar de dias em que eu, como fábio, me deixara levar pelas coisas sem reação e me perdera em delírios românticos a lá terceira geração. mas sinto que perdi um pouco por aí, que me deixei ficar pela poeira das ruas, pelos obstáculos, e fui seguindo em frente como se nada mais importasse. tudo importa. a vida tem que seguir, a vida sempre tem que seguir, mas algumas coisas vão sempre ficar pra trás.

saudades dos meus melhores dias, dos melhores refrões. no fundo, a gente sempre espera um bis.